E fodam-se as imagens q eu to com preguiça.

Em algum momento entre os anos 80 e 90 uns caras chaparam legal de ácido e decidiram pegar instrumentos de rock pra tocar "músicas" com objetivos não-roqueiros. Esses caras eram basicamente duas bandas: Talk Talk e Slint, e os CDs que eles gravaram nessa viagem de ácido acabaram por parir uma das crias bastardas mais bizarras do rock em geral: o post-rock. O recém nascido estilo, cuja criação é as vezes creditada como responsabilidade da banda Tortoise, também, teve como pedra angular os cds: Laughing Stock, do Talk Talk, e Spiderland, do Slint. Esse último, no entanto, tem o agravante de, além de ser o precursor de todo um estilo, ser provavelmente o CD mais filhodaputa que qualquer um já fez. Não diria o melhor (certamente um dos melhores) mas diria (de novo) com um sorriso no rosto: "o mais filhadaputa".
É basicamente o seguinte:
Um riffzinho tranquilo leva todo o CD, dando o tema sobre o qual as músicas vão ser trabalhadas. A voz no princípio é um murmúrio, e a bateria e a guitarra bem comportadas. Mas quem pensa que o álbum vai correr tranquilo, estilo Do Make Say Think ou outros Post-Rocks mais água-com-açúcar, se vê errado já nos primeiros minutos da faixa de abertura, Breadcrumb Trail.
Logo no começo da música a bateria se eleva, e a guitarra deixa de ser encarada como um instrumento e passa a se assemelhar muito mais com uma arma de destruição em massa, postura essa que dominará pro resto do CD. O vocal, antes murmurado, dá o primeiro sinal do que ele atingirá na última faixa. São as portas do inferno se abrindo pela primeira vez, só pra você dar uma olhadinha. E depois de uns 3 minutos de quebra-pau, volta o riff inicial, como se nada tivesse acontecido, como se as coisas fossem assim. Cinismo da melhor qualidade.
Segue Nosferatu Man, que se inicia com o mesmo tema geral, mas de um jeito bem mais pesado. As guitarras tão lá, não deixando pedra sobre pedra, e se a primeira faixa te levava ao inferno e de volta outra vez, essa te leva lá, expulsa satanás, te põe sentado na poltrona dele e te manda aquela piscadinha antes de ir embora (e te deixar lá, claro). A musica também é estruturada (como quase todo o CD) em momentos calmos e clímaxes, mas os momentos calmos são, digamos, tão calmos quanto vc fugindo de uma multidão de zumbis sanguinários num belo campo florido. E você corre, e olha pra trás, e corre desesperado das arremetidas de guitarras que querem porque querem partir sua cabeça em duas, até que...
"Don stepped outside"
Começa Don, Aman, com o tema geral de certa forma simplificado, e bem mais calmo que o da música anterior. Começa então a sequência das músicas calmas do CD. Essa primeira tem como destaque o incrível trabalho de cordas, que começa ali pelos dois minutos e via até fechar a faixa, na entrada de distorção mais inspirada da história.
Para a próxima faixa, Washer, talvez a segunda melhor do CD, a guitarra bota o Destruction Mode no off por uns momentos, e abre espaço para a única coisa que ainda faltava no CD: o vocal se sobressai, melodioso pela primeira vez, e a guitarra e a bateria se juntam pra formar a versão mais obscura daquele riff inicial. A música, arrastada, chorada e melodiosa, é a que mais se assemelha com o conceito usual de "música", ou seja, é a menos post-rock. Mas como o CD foi feito pra funcionar como uma música só, ela tem uma função prática: ela acalma de vez o instrumental furioso do começo do CD, e te faz esquecer das Guitarras de Destruição em Massa, que ainda se viam presentes na música anterior. Ou seja, essa faixa tá aí só pra te confundir, e faz isso de um jeito filhodaputa de bom. Isso até seu minuto final. Do nada, as guitarras voltam com força total, a bateria cresce de novo, e as portas do inferno ameaçam se mexer. Camadas e camadas de guitarras ultra-distorcidas giram e brincam e pulam, por míseros vinte segundos. Daí, a música volta ao normal. É só um (excelente) preview do que vem daqui a pouco
A quinta faixa, For Dinner..., é a música mais calma, e talvez o único ponto em que a banda falha. Não por ser calma, uma vez que as duas anteriores são calmas e excelentes, mas por falta de inspiração. A bateria, o instrumento mais evidente na faixa, se repete quase que o tempo todo, a guitarra é discretíssima, e entra as vezes nuns acordes inexpressivos que logo somem de novo. Mas a música é, felizmente, útil. Ela finalmente te convence que desistiram de abrir tua cabeça, o inferno e etc, e que daqui pra frente as músicas vão ser assim.
Ledo engano! Entra então a linha de baixo de Good Morning Mister Captain (a melhor música do CD), que na boa, o cara só pode ter escrito durante uma overdose de Viagra, ou similares. O baixo é ouvido significativamente pela primeira vez e, em parceria com a bateria, faz o tema geral. E isso é perfeito, porque deixa a guitarra se concentrar no único e derradeiro objetivo da destruição massiva. Ela entra em levadas assustadoras, e parece brigar com a bateria pela supremacia, enquanto o baixo destrói ao fundo, e o cara conta alguma estória mucho bizarra em primeiro plano. Logo de início, a guitarra tenta arremetidas mais ousadas, mas é rapidamente contida pela bateria, que prontamente se levanta
Até que alguma coisa acontece e o equilíbrio vai pro saco. O vocal, subitamente, entra ao lado da guitarra, que insinua acordes mais agressivos. A bateria desiste, e entra do lado da guitarra também.O Baixo nisso some, e vocal, guitarra e bateria se lançam no clímax da música, do CD, da banda e, porque não, da história da música. O copo transborda, sua cabeça finalmente se parte, o inferno se abre e invade a terra. Criancinha famintas na África sendo estupradas, ursos polares comendo uns aos outros, a Holanda sendo submersa, Angra 1, 2 e 3 explodindo ao mesmo tempo, os Estados Unidos presenteando a Rússia com uma chuva nuclear e seu pai encochando sua vó. A guitarra ficou totalmente insana, e agora soa como se fossem 8, e não duas. Os acordes, sempre pontuados pelo prato da bateria sendo espancado e gritando por socorro, são tocados de tal maneira que você se pergunta se o objetivo dos caras é fazer música ou estourar cada porra de corda seus instrumentos. E, acima de tudo isso, o vocal se solta finalmente, e parece liberar toda a angústia acumulada nas outras faixas, simplesmente urrando "I MISS YOOOOOOOU" entre uma seção de guitarras e a outra, na maior demonstração de desespero musical que já se viu, com a possível (mas não provável) exceção de alguma performance dos nossos amigos Kurt Cobain (como na "Where did you sleep last night") e Ian Curtis (como na "New Dawn Fades").
A música então para, o CD acaba, e você tenta se convencer que tudo está no lugar que estava antes, mesmo sabendo que alguns milhares de neurônios que estavam a alguns minutos dentro da sua cabeça não estão mais em lugar nenhum. Daí só resta uma coisa, uma barreira, um limite a ser quebrado. Você TEM que ouvir esse CD com fones do ouvido. Ta duvidando disso tudo? Te fode e baixa aí










