
Todo mundo sabe que a Academia e seu gnominho de ouro não valem nada. Conservadorismo, foco comercial, pode até escolher seu motivo. É uma palhaçada o que eles fizeram com o Scorsese, não só por deixar ele anos e anos sem um Ocarzinho sequer como também finalmente entrega-lo a estatueta por um filme que, apesar de muito bom, foi bem menos expressivo que o resto do trabalho dele. Isso na mesma cerimônia, aliás, em que eles entregaram o Oscar (já a muito merecido, também) ao Ennio Morricone, e puseram a Celine Dion pra jogar a música dele na lama e pisar
De qualquer forma, todo mundo sabe também que Scorsese é um excelente diretor. É uma daquelas verdades cinematográficas solidificadas, como o fato de que o melhor Bond é o Sean Connery: é do tipo de coisa que não se questiona, se aceita. E eu não sou diferente, não pretendo questionar, só pretendo fazer um ponto. E é o seguinte: ao longo de anos e anos, e filmes e filmes, Scorsese acabou criando para si um estilo (como todos criam, eventualmente). Não só um estilo de filmagem, de enfoque, com longas tomadas cheias de travelling, com diálogos imperfeitos, mais orgânicos, mais reais; mas também um estilo de estória. Se por um lado seu enfoque nas relações homem/mulher como algo paternal, violento, de “posse”, que acaba, invariavelmente, em brigas, drama, traição, decadência, é típico de época, e não “culpa” dele (como em Scarface [Brian dePalma] ou Poderoso Chefão 2 e 3 [Francis-Ford Copolla]), por outro lado ele cai num vício de estilo no roteiro de filmes como Touro Indomável.
Mas que timing!
O problema é o seguinte: Touro Indomável é basicamente sobre um cara, Robert deNiro, ladeado por seu amigo de fé (nesse caso, irmão), Joe Pesci, que sobe na vida porque, no fundo, é muito bom no que faz, só que acaba se envolvendo com mulheres da maneira supracitada, e acaba se fodendo no final por causa de sua teimosia e seu orgulho. Se você já viu Cassino, sabe que é exatamente a mesma coisa. Mesmo ator, mesmo plot básico, só muda ao ambiente: um no mundo do boxe, outro no mundo dos cassinos. Não que isso chegue a deixar o filme ruim, veja bem.
O elenco, talvez o maior trunfo do filme, dá um show. Cathy Moriarthy, com 19 aninhos, maravilhosa, faz a mulher que causa ciúmes doentios no personagem principal com uma segurança absurda. No papel de Jake
para a montadora), com direito a cenas geniais, como LaMotta sentado no escuro, ao invés de onde a luz incide, numa das cenas de maior intensidade no filme. E os diálogos, as falas, são talvez onde mais se evidencia o estilo do diretor e sua habilidade. Por um lado, as brigas soam sempre realistas, e a crescente loucura e o crescente ciúme do personagem principal são visíveis; por outro lado é muito difícil encontrar por aí uma coisa tão foda, tão épica, tão arrepiante, tão vervica quanto o
ô baxinho bom de serviço
O estilo de estória de Scorsese, que por vezes nos irrita ao longo de Touro Indomável, por sua similaridade com outros filmes (sem, contudo, chegar a comprometer a qualidade do filme seriamente), se destaca por ser quase desesperador. Ao contrário da tendência do cinema atual, o personagem principal é um anti-herói. E não um anti-herói malandro e divertido, como um Jack Sparrow, que é anti-herói por estar do lado errado da lei, não do lado errado da moral, ou se do lado errado da moral, pelo menos com essa imoralidade sendo justificada e até humorizada pelo roteiro. Não, os anti-heróis Scorcesianos são realmente monstros asquerosos, inspiram repulsa e desprezo, e se junto com isso passa alguma compaixão ou identificação, isso é só devido ao fato de que você o acompanha por duas horas. Então, durante o filme, acompanhamos um canalha asqueroso e, principalmente, orgulhoso, destruir sua vida, suas oportunidades, seu casamento, suas amizades, por conta de seu temperamento filhodaputa. Problema atrás de problema, recaída atrás de recaída, vemos uma decadência absurda de campeão mundial de boxe para abridor do show de uma stripper velha. O ponto menos assustador desse filme é que, pelo menos, uma boa parte do que ele se fode é por causa de alguma espécia de deus ex-machina, ou em outras palavras, azar mesmo, e não por causa das atitudes dele. E de certa forma, tirando o campo sempre perdido das relações “amorosas”,

Nenhum comentário:
Postar um comentário