Dá-lhe pílula azul pra levantar esse blog...

1 de ago. de 2007

Espia!

Hão todos de concordar comigo que este blog não representa, de maneira alguma, um exemplo de qualquer forma de jornalismo, que diria de jornalismo válido. Tudo bem, uma vez que não existe esse tipo de pretensão de minha parte. Mas é de me surpreender as opiniões e idéias expressas por aí de vez em quando por gente que, no conceito geral da palavra, praticam jornalismo.

Devo avisá-los, logo de cara, que este texto será inconvenientemente longo, e com muito mais citações do que meu professor de redação ensinou que um texto pode ter, mas levando-se em conta meu objetivo com este, tal excesso se faz necessário. Prometo que esse tamanho e, principalmente, essa inclinação a assuntos políticos, não se repetirá por aqui por um bom tempo. Estando avisados, continuo o texto em si.

Estava passando por minha habitual folheada na Veja, que eu acabei descobrindo ser, para a infelicidade da minha consistência de argumentação, da semana anterior [N do E: isso foi quando esse texto foi escrito, agora esse artigo já tá um pouquinho mais atrasado], quando fui surpreendido por um curioso título do artigo de Reinaldo Azevedo: “A Al Qaeda eletrônica” (pág 102/3, edição de 20 de junho). Instigado pelo título e pela imagem ilustrativa (dois terroristas islâmicos cujas cabeças foram substituídas por monitores, nos quais se vê a estrela vermelha “do PT”, fora um mouse cujo fio queima como o pavio de uma bomba, no primeiro plano (é impressão minha ou essa imagem tem simplesmente informação demais?) comecei a leitura do artigo.

Mais alguns esclarecimentos aqui se fazem necessários. Primeiro, de forma alguma estou dizendo que Reinaldo Azevedo seja um jornalista de baixa qualidade. Pelo contrário, seu trabalho com palavras é excelente, e não é a toa que ele tem duas páginas da revista de maior circulação no país ao seu dispor. Além disso, o fato dele citar em seu artigo pensadores como Tocqueville, Spinoza, Merquior, é uma prova, mais do que desnecessária, de que ele é muito mais teoricamente capacitado que eu. Não que eu nunca tenha ouvido falar do nome desses caras, mas confesso que não faço a MENOR idéia de quem seja qualquer um deles. Critico e questiono, antes, as opiniões no mínimo fascistas que ele expõe em seu texto.

Acompanhem: “’Quem você pensa que é?’ Nos tempos pré-Veja, essa era a pergunta com a qual as esquerdas pretendiam me fulminar. [...] Há um prazer particular em não ser ninguém e flagrar, por exemplo, a pensadora petista Marilena Chauí pulando a cerca que separa o filósofo holandês Spinoza do vândalo venezuelano Hugo Chávez.O primeiro é um dos pilares do debate ético;o segundo é só um ditador cômico e violento.”. Fenômeno curioso esse catalisado pela Veja, pela Globo, etc. que faz a palavra “esquerda”se tornar algo muito próximo da expressão “grupo terrorista”. Veja você, por exemplo, o título do artigo aqui criticado, que não me deixa mentir. Ou melhor ainda, usando a definição que o próprio Reinaldo Azevedo dá nesse próprio texto, “[...]o nosso esquerdismo, a doença infantil da civilização[...]”. Não sei porque, mas essa frase me soa como algo proveniente do fim do século 18. E o mais estranho é que quase ninguém que lê isso acha um absurdo. Estamos acostumados com o direitismo exacerbado, como se a esquerda fosse um mal. Daqui a pouco estaremos rezando na igreja para que Deus nos livre dos comunistas, que são, afinal, nada além de comedores de criancinhas. E o pior é que, como sempre, quase ninguém ia se preocupar com isso, ou achar um absurdo. Acontece que, no Brasil, país de inversos, a mídia controla o povo ao invés do povo controlar a mídia.

"as zelites" da mídia brasileira

Ainda sobre o mesmo trecho, eu me surpreenderia se soubesse que ainda existe uma inocente alma nesse país que acredita em tudo que a Veja diz sobre Hugo Chávez. Não que eu esteja defendendo o ditador (que ele, afinal, é), ou dizendo que a ditadura dele é o melhor para o país, ou muito menos concordando com a Egocracia que ele instalou na Venezuela. Pelo contrário, uma das coisas que eu mais sou contra quando diz respeito à política é Egocracia. No entanto, a Veja, e a mídia brasileira mainstream no geral, insiste em tratar Chávez como um idiota bruto que só se mantém no poder pela violência, e nem me pergunte como ele chegou lá, já que em discursos, administração e tudo mais, ele sempre se prova ser despreparado e, simplesmente, ignorante mesmo. Que é, por sinal, o mesmo jeito que eles tratam qualquer presidente de esquerda. Pense em Lula, Kirchner, Chávez, Morales, Castro. Até involuntariamente, nos surge a mente imagens de loucos incompetentes, ladrões. E se você pensa que a imprensa não é capaz de manipular a imagem de alguém dessa maneira, basta lembrar do já mundialmente famoso caso da Globo nas eleições de 94. A pergunta é a seguinte: como será que pessoas tão despreparadas chegam a um posto de governante de um país? Se eles são tão ruins para a população, como conseguem tanto apoio popular? Como conseguem ficar no poder por tanto tempo (Lula, por exemplo, vai ficar 8 anos, e se dependesse do povo e não das leis, ficava mais 4, pelo menos. Fidel está no poder a muitas, muitas décadas). Lógico que há repressão, lógico que há manipulação das massas, mas até mesmo Vargas, que foi um dos mais competentes da história em termos de se manter no poder, de populismo e de manipulação do proletariado, teve o controle por 15 anos, contando com o governo constitucional, ou seja, muito menos que Fidel. Mas o povo brasileiro não vê o apoio popular, não vê as manifestações a favor do fechamento da RCTV, não vê o povo pobre de Cuba, que é favorecido pelo governo socialista e o apóia. Nós vemos apenas um ou outro esportista que foge da delegação de Cuba porque, claro, ser rico num país socialista não tem graça. Nós vemos só as fotos do Chávez de uniforme militar, e outras demonstrações do quão Egocrata é seu governo.

"Meu blog tornou-se um Diário da Invasão da reitoria da USP. Passei a publicar textos de alunos e professores que queriam aula e se opunham à violência dos remelentos e mafaldinhas, os comunistas do Sucrilho e do Todynho. [...] Querem me sufocar com mensagens favoráveis aos vândalos, cobrando o que chamam a 'sua [minha] democracia'.Ocorre que a minha democracia, que é a universal, não solapa as bases que garantem sua legitimidade". O jornalista acusa o movimento desocupação da reitoria da USP de um movimento de "esquerda" (a palavrinha mágica novamente), e pior ainda, de uma esquerda pueril, mesmo quando a a manifestação teve por causa a terceirização de serviços , o corte de investimentos, e a maneira ridícula com que o (tucano) Serra administra a questão educacional em SP. O único princípio do comunismo (marxista) aí observado é o da revolta, o da mudança violenta, no lugar de discussões diplomáticas infrutíferas para se obter reformas inócuas, como manda a direita. Todo o intelectualismo conservador brasileiro, toda a mídia reacionária (Veja, Globo, e todas as outras, praticamente), pregam veladamente, escondido sobre a máscara do reformismo, da social-democracia, uma manutenção virtualmente eterna das péssimas condições sociais, das desigualdades. E caem o tempo todo numa absurda contradição, ao anunciar edição após edição o estado irrecuperável em que se encontra o Brasil e o mundo. A verdade é que, longe de querer fazer algo para recuperar essa situação, eles repetem o diálogo liberalista proto-burguês de liberdade através da democracia e democracia através do capitalismo, para buscar manter as elites onde elas estão e o povo onde ele está, este acreditando que a qualquer momento alguém vai, de dentro do mecanismo democrático-capitalista, acabar com as desigualdades sociais. Veja novamente esse trecho do texto "Ocorre que a minha democracia, que é a universal, não solapa as bases que garantem sua legitimidade". Que democracia é essa, a universal? A democracia da crise aérea, do mensalão, dos rebanhos “superprodutivos”, dos ACM? E quais são essas bases que garantem sua legitimidade? A ilusão da escolha popular, a escolha alienada de massas manipuladas e analfabetas? Me remete, novamente, a discursos de teóricos como Locke. Realmente acho que estamos voltando ao século dezoito.

Reinaldo continua, então, apontando perigosos movimentos de “esquerda”, e deixa finalmente claro o porque do título (A Al Qaeda eletrônica): “Os integrantes da Al Qaeda eletrônica não se contentam só com o envio de mensagens desaforadas: criam páginas anônimas só para esculhambar aqueles que não gostam; formam comunidades no site de relacionamentos Orkut para odiar pessoa; ressuscitam o hábito nativo de especular sobre a orientação sexual de desafetos[...]”. Acho que me perdi por um momento, desde quando “especular sobre a orientação sexual de desafetos” é exclusividade da esquerda? E comunidades no orkut? Será que esse é o novo caminho para a revolução e eu não fiquei sabendo? Quer dizer, pro inferno com a dialética materialista, com a conscientização das massas, com o momento histórico, com a análise de conjuntura, meu Deus, como ninguém viu isso antes, o caminho para uma sociedade comum e igualitária é criar comunidades no orkut para chamar direitistas de veados! E sem contar, claro, que se você parar para pensar sobre isso, alguns jornalistas de direita como Diogo Mainardi e o próprio Reinaldo Azevedo nada mais fazem a não ser “criar páginas anônimas só para esculhambar aqueles que não gostam”, com a pequena diferença que as páginas em questão são de revista, não na internet, e que esse desserviço não é anônimo. “Os blogs, até pouco tempo atrás, eram um território quase exclusivo do que os vários matizes da esquerda chamam ‘direita’”. “Ela não se contenta em ser uma leitura da realidade [...] de modo que ou você passa a integrar essa metafísica influente ou é um ‘reacionário’. Foi com esse adjetivo que uma jornalista classificou uma manifestação na USP contrária à invasão”. É evidente, não só nessa parte como em todo o texto, que viemos acompanhando por um bom tempo agora, o uso da onipotente e onipresente palavra “esquerda”. Então porque essa resistência quanto à palavra “direita”? A esquerda é discriminada desde o princípio, como um grupo evidente e distinto. Já “direita” parece ser um termo cunhado pela maldita esquerda para se referir a estes pobres jornalistas que, afinal de contas, só defendem sua universal democracia, com os diabos! E quanto à classificação da jornalista, é questão de lógica: há uma situação, contrária a ela é a revolução, contrária a essa revolução é uma reação dessa situação. Portanto, reacionária. E, afinal, como alguém que escreve um texto como esse não quer ser classificado como direitista e reacionário?

reaça!!!

O problema não está na reclamação. O ponto de vista, a crítica, procedem sempre. Com certeza deve existir a tal Al Qaeda eletrônica, uma esquerda virulenta. O problema é que a mídia brasileira usa as palavras de forma a associar essa esquerda, a esquerda virulenta, a esquerda petista, a esquerda falida, com todo e qualquer movimento de esquerda. Eles selecionam dados, fazem associações descabidas, apelam pra (já um tanto obsoleta) democracia. Como fazem os Estados Unidos em sua cruzada ridícula contra os terroristas, em que fica claro um interesse mesquinho e egoísta, e não do bem público, fazem os jornalistas deste país. Só que em vez de deixar a população livre de “grupos terroristas”, eles nos salvam da maldita “esquerda”. Se bem que, ultimamente, essas expressões são tidas como coisas muito próximas. Infelizmente. a melhor do pa defendendo o cara, ou dizendo que a ditadura dele da existe uma inocente alma nesse pa da minha consist

PS: Assistam "A Revolução Não Será Televiosionada"
PPS: Fico meio impreciso e pseudo-esquerdista o texto né? Te fode, isso não é jornalismo, como já foi muito bem observado por mim mesmo no começo do texto.
PPPS: leiam o editorial ae embaixo, ó:

Um comentário:

Mari disse...

preciso formar minha opinião a cerca desse assunto sozinha. mas tô com você até o momento. no mesmo barco. uhul